Essa postagem é um misto de desabafo com registro histórico. Na minha infância muitas vezes usei a frase "eu disse" onde na verdade eu havia apenas pensado.
Quero evitar incorrer nesse mesmo erro. Por mais "solitário" que esse blog seja, ainda assim, quis escrever, mesmo que seja para si próprio.
Quero registrar a atual situação política de nosso País, onde estamos vivendo um cerceamento da liberdade de pensamento e um fundamentalismo sem precedentes. Sim, oficialmente temos liberdade de expressar, mas na prática, tornou-se impossível qualquer diálogo racional sobre política, especialmente se for para fazer qualquer crítica ao candidato da direita. Se na esquerda sempre tivemos partidos radicais que pregam que a eleição é uma farsa, que só a rebelião resolve e coisas do tipo, mas que nunca encontraram coro significativo para suas ideias, agora chegou a vez da direita usar o mesmo método, numa estranha apropriação de estilo ultrapassado.
Até assassinato em virtude de divergência política entre eleitores já foi registrado.
Em primeiro lugar, nunca encontrei e nunca vou encontrar um candidato que me inspire uma paixão futebolística como essa que aplacou milhares de brasileiros. Sim, a paixão pelo futebol provém das emoções e dispensa análises racionais e isso, mais do que nunca está presente na política atualmente.
O brasileiro que nunca quis discutir e muito menos entender política resolveu da noite para o dia ser detentor da verdade absoluta e irrefutável e quem discorda é um ignorante.
Esse tipo de pensamento já foi muito usado pela esquerda, mas nunca aplacou tanta gente como vemos nos dias atuais. Não é uma situação que beira ao ridículo, é a personificação completa do ridículo.
Desde sempre nunca votei no PT, mas mesmo assim, hoje sou "proibido" de estabelecer qualquer crítica ao candidato Bolsonaro sob pena de ser acusado de ser comunista. Logo eu? Sinto-me coagido e constrangido a apoiar o candidato da direita. Lembra muito a frase dos tempos de ditatura: "Brasil. Ame-o ou deixo-o" e para os fundamentalistas políticos, só existe um jeito de amar o Brasil: "É TÃO RIDÍCULO QUE ME RECUSO A ESCREVER".
Não estou dizendo que vou votar no PT, o que eu digo é que gostaria em primeiro lugar de votar em paz, gostaria de poder usar o cérebro ao falar de política, gostaria de poder discordar e gostaria de dizer que poderíamos ter outros candidatos no segundo turno. Gostaria de poder usar a roupa com a cor que eu quiser, gostaria de não ser hostilizado por não fazer parte dessa histeria coletiva.
Não vou usar verde e amarelo no dia da eleição, não vou colocar uma bandeira do Brasil em volta do pescoço e não vou ficar fazendo propaganda contra ou favor de ninguém.
A democracia e a liberdade estão sendo ofendidas diariamente pelo radicalismo e pela imbecilidade em muitas situações.
O brasileiro não estuda história e volta a repetir os mesmos erros do passado, que é fantasiar heróis salvadores que vão resolver todos os problemas do País. Podemos e devemos achar que um candidato é melhor do que o outro, agora, achar que tudo será resolvido é um tanto quanto infantil. Claro, que muitos eleitores estão conscientes e votarão de modo consciente, acreditando estar fazendo a melhor opção e sem expectativas fantasiosas, mas uma grande massa votará cercada de devaneios e essa massa quer impor sua escolha (não seus pensamentos pois não há racionalidade nessa massa).
Desde que me conheço por gente falo da necessidade de renovar as figuras políticas e quem me conhece sabe o quanto eu insisto que a mudança precisa começar no legislativo. Sempre tentei fazer isso e até hoje só elegi um deputado federal e uma vereadora, neste segundo caso, para sua primeira legislatura e até onde acompanhei, fez um ótimo trabalho. Naquela ocasião, ela foi a única "novidade" na Câmara, mesmo com todo o grupo anterior ter acusações de nepotismo.
Nesse ano, a renovação foi grande, mas infelizmente, não por racionalidade, mas por histeria coletiva, onde boatos ridículos nas redes sociais, total falta de conhecimento do processo político, pressões fundamentalistas, obediência a determinações de candidato ao executivo e outras razões absurdas. O grande fato é que grande parte dos "novos" no legislativo, nem as pessoas que votaram neles sabem quem são.
Eu votei muitas vezes em candidatos pouco conhecidos, mas eu sabia quem eram, pesquisava sobre eles, e muitas vezes era criticado por votar em candidatos sem chance. Agora, por razões que somente a histeria coletiva pode explicar, diversas pessoas de pouca expressão foram eleitas ou quase eleitas e isso é a melhor coisa que poderia acontecer.
Porque não podia ter acontecido antes??? Porque eu era criticado por tentar renovar de modo consciente e agora sou um monstro por criticar a renovação cega?
Sempre tive a opinião de que o voto de legenda deveria ser abolido, justamente porque entendo que as pessoas deveriam saber em quem votam, especialmente nos dias atuais onde buscar informações é tão fácil.
Outro sintoma claro da histeria coletiva é o apoio da população às violações de direitos que ocorrem quando um empresário manda os funcionários apoiarem um candidato e os ameaça de perderem seus empregos. Como alguém pode apoiar algo assim? O brasileiro sempre foi contra coisas do tipo, mas agora aplaudem e transmitem pelas redes sociais como exemplo a ser seguido. As pessoas que fazem isso não conseguem enxergar o que estão fazendo?
Quando recebi um video desses certa vez, achei que se tratava de uma crítica, uma vez que o remetente escreveu apenas "vejam isso", mas depois descobri que era uma exaltação. O pior de tudo é que não estou falando apenas de pessoas pouco esclarecidas, estou falando de pessoas com curso superior e carreira de sucesso. Estamos apoiando o "vale-tudo"? É isso mesmo?
O Supremo Tribunal é ameaçado e tem gente achando isso bonito?
Eu nunca tinha visto candidato que está ganhando criticar pesquisas ou colocar em dúvida o processo eleitoral, mas agora isso acontece. Porque? A vitória tornou-se obrigatória? Deixou de ser uma disputa para ser uma certeza inquestionável?
A imprensa, ao transmitir qualquer matéria é sempre chamada de tendenciosa, aliás, engraçado que escuto isso desde sempre e ela é acusada de tendenciosa sempre que de alguma forma desagrade quem lê ou assiste a matéria.
Vejamos o absurdo a que chega essa necessidade de chamar a midia de tendeciosa: Há muito pouco tempo atrás quando o Lula estava sempre presente nos noticiários, a imprensa era acusada de ser de direita e de perseguir o PT. Hoje, qualquer coisa que apenas "diminua" o brilho de Bolsonaro, a midia é taxada de comunista. Tudo isso só porque uma parcela significativa resolveu "mudar de lado".
Qualquer comentário que se faça que seja minimamente negativa ao candidato da direita é visto como uma elaborado plano comunista. Ah, por favor, vamos aprender a usar a cabeça, já estamos no século XXI.
Qualquer decisão de voto deveria ser tomada com base em ponderações e não em febre de boiada.
Que fique claro que não estou dizendo para votar em X ou Y, não é essa questão. A questão é a irracionalidade presente nas eleições desde que me conheço por gente, o problema é que ao invés de progredirmos nessa área, observa-se uma um regressão, voltando ao início do século passado.
Se porventura alguém ler esse texto, procure não classificá-lo como "tendencioso" pois ele definitivamente não é e classificá-lo como tal pode ser uma sintoma da histeria coletiva, afinal, como disse lá no início, nunca votei no PT e sempre fui contra o PT, mas isso não significa que cegamente vou aceitar tudo que provenha contra o PT, especialmente quando fere o bom-senso, a racionalidade, a democracia e a liberdade de pensamento.
Se eu tivesse mais tempo gostaria realmente de colher informações sobre o que as pessoas esperam que aconteça de concreto, principalmente para observar o percentual de respostas com conteúdo aproveitável e o percentual de conteúdo evasivo, vazio e negativo (por exemplo, acabar com a palhaçada toda, que não diz nada).